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Cepas bacterianas multirresistentes

Fig 1: exemplo de bactéria sensível à vários antibióticos (esquerda) e resistente (direita)

Não faz muito tempo que íamos às farmácias com queixas diversas como dor de garanta, ou dificuldade para urinar e saímos felizes de lá com um antibiótico, o todo poderoso remédio para todos os males. Essa cultura se comprovou extremamente danosa.
Desde 2010, a venda de antibióticos passou a necessitar de uma prescrição médica, pois já existia uma grande preocupação sobre o uso indiscriminado de antibióticos e a existência de cepas resistentes a vários ou até todos os antibióticos disponíveis no mercado. Apesar de uma melhora no cenário ainda há excessiva prescrição de antibióticos. Segundo a OMS o Brasil é o 17ª país que mais prescreve antibióticos num rank com 60 países.
A pandemia da COVID19 agravou ainda mais a situação. Segundo dados da OPAS – Organização Panamericana de Saúde foram prescritos antibióticos para mais de 90% dos casos de pacientes hospitalizados, onde só havia real indicação de uso para apenas 8% dos casos. Para se ter uma ideia, em 2020, a azitromicina, foi o antibiótico mais usado, e teve um crescimento de 105% nas vendas. 
Os antibióticos são substâncias naturais, sintéticas ou semissintéticas que podem ser classificadas como bactericidas, quando matam a bactéria, ou bacteriostáticas quando inibem o crescimento das bactérias. Cada antibiótico tem seu próprio mecanismo de ação. A resistência bacteriana acontece pelo surgimento de mutações aleatórias que contribuem para a “proteção” (da bactéria) contra os antibióticos. 
A resistência aos antimicrobianos é um dos maiores desafios para a saúde pública atualmente, com importante impacto na saúde humana e animal. A pressão seletiva dos antibióticos sobre as bactérias é decorrente do: (i) mau uso de medicamentos antimicrobianos na saúde humana; (ii) programas inadequados ou inexistentes de prevenção e controle de infecções, o que favorece a transmissão da resistência entre os microrganismos e a exposição de indivíduos a microrganismos resistentes; (iii) antimicrobianos de má qualidade; (iv) fraca capacidade laboratorial; (v) vigilância e monitoramento inadequados; (vi) insuficiente regulamentação e fiscalização do uso dos medicamentos antimicrobianos.
Conhecida como AMR (do inglês AntiMicrobial Resistence – Resistência Antimicrobiana) é uma ameaça mundial. Existem inúmeros estudos tanto no Brasil como no exterior, abordando a aquisição de resistência, onde os organismos mais estudados são Staphylococcus aureus resistente a meticilina (MRSA), enterococos resistentes à vancomicina (VRE), enterobactérias resistentes à multidrogas, e ainda as pseudomonas e os acnetobacters resistentes.
E de que forma isso pode nos impactar? Imagine-se doente, com uma infecção causada por algum desses microrganismos super-resistentes, com escassas alternativas terapêuticas. A evolução do quadro clínico pode ser rápida e fatal. 
Não são apenas os antibióticos de uso humano que tem impacto. O uso de antimicrobianos na agropecuária também tem suas consequências na saúde pois seu uso influencia todo o ecossistema.
 Aumentar a conscientização sobre o melhor uso dos antibióticos para prevenir essa ameaça é uma emergência. A AMR é um problema complexo e requer ações coordenadas dos vários atores do setor.